quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Na cozinha.


Acendeu um cigarro e colocou uma xícara de café. A cada gole dava dois tragos. O calcanhar batia acelerado no chão, o cotovelo esquerdo na mesa e a mão agarrando a testa, típico de quem tá impaciente. Observava a mesa ainda por limpar como se tentasse apagar os próprios pensamentos. Sabia que estava apaixonada, talvez até arriscasse afirmar que o amava caso soubesse o que é o amor. Mas estava com M. já fazia algum tempo, embora por ele não sentisse a mesma coisa, eles já possuíam algum tipo de história, além de que ele tinha um emprego, uma perspectiva futura mais ampla. Enquanto o outro, que lhe roubava os pensamentos e a quietude naquele instante, não tinha a mesma coisa, só os elogios e o jeito carinhoso de olhar pra ela, de fazê-la especial nos instantes mínimos. Por que o amor erra? Era o que ela se perguntava.

- Acho que estou apaixonada por outro rapaz, mãe. – revelou.
- É mesmo, filha? – respondeu como se não soubesse.
- Eu acho que o amo... mas não tenho certeza se isso é o suficiente...
- Só o amor às vezes não é o suficiente.
- Mas isso não deveria ser o ideal de todo ser humano? O sentimento mais nobre? A razão primordial de toda e qualquer relação? – gritou em desespero.
- Existem várias razões pra se manter uma relação, filha. Amor? Talvez seja a menor delas. – com um olhar vago, respondeu a mãe ao lavar os pratos.

(Imagem: René Magritte - Os Amantes)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Absu

Com quantos abismos se faz um homem? E uma vida? Talvez todos os que valeram a pena. Não sei, não sei. Atiro-me em todos, jamais hesito. Não se trata da dor do choque com o chão, trata-se da queda, do frio na barriga que nos consome e nos lembra por um instante que somos humanos, que somos vulneráveis, que estamos sujeitos a virar uma esquina qualquer. Penso que prudência vai de encontro ao que a vida delineia, ao curso anômalo e sem sentido das coisas no mundo. Se pudesse, beberia a vida em um único gole.

"Do not go gentle into that good night
Rage, rage against the dying of the light
" Dylan Thomas

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ode ao 03.

...na roleta, a gárgula barroca feita de banha e osso. O shortinho jeans sublinhando celulites e veias varicosas, a blusinha branca cobrindo apenas metade da barriga, a outra revelando o piercing róseo no umbigo. Dois, três meninos em cada braço. Suor, choro, fungadas, soluço, língua lambendo a boca pra limpar o catarro. Ela senta, as crias se aninham em seu entorno. Passo direto para o fundo do ônibus, consigo sentar, primeiro sinal de esperança da rotina diária. Ônibus lotado. Não se demora até que o cheiro quente de uma boa bufa lhe ourice os ríspidos pêlos nasalares. Do meu lado, o comentário sutil e educado: - Cagaram nessa porra! Rio em silêncio. 07h10 da manhã, o cheiro de cana rasga o último resquício da brisa matutina e enobrece o ambiente. – Tá afim, boy? Recuso, mas me sinto lisonjeado. O café da manhã dos campões não é digno de qualquer um. Gatinha, você gosta mais de red label ou ice? O pinta liga o celular e quebra a esfera melancólica. As piriguetes se denunciam balançando o joelho. Hora de descer, puxo a corda e peço parada. Mais uma vez a batalha até a porta de saída. Braços, pernas, sovacos, empurrões e dedadas – levo umas, mas dou outras. O toma lá da cá da vida em sua expressão mais precisa. Evito, mas encoxo tudo aquilo que me cabe. Não existe pecado num ônibus lotado. – Licença, licença. – Vai descer, pé de chumbo! Desço. Mãos nos bolsos. Celular e carteira em seus respectivos lugares. Mais um dia de bênçãos, mais um dia de bênçãos...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Um pouco de música:








"He was Dylan Thomas, he was Woody Guthrie... He was Bob Dylan..."

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Devaneio

É madrugada, afora o silêncio preenche o vazio inquietante das ruas. A beleza que a noite esconde encontra-se no seu mistério, como se seus lábios encostassem-se a nossas orelhas, mas nada dissesse. De tal modo que cada passo na calçada se torna perigoso, assim, nessa vida tracejada em formas opacas, caminhar revela-se como um ato transgressor. É pôr-se á frente do perigo no momento em que somente as TV’s falam aos ouvidos dos homens, é buscar o silêncio e a insegurança da reflexão. Penso em Jesus e seus dias no deserto, penso naquilo em que as ruas se transformam durante o dia, o palco da guerra do cotidiano, no sangue e no suor que serão derramados, nas pessoas que lotarão os ônibus, nas notícias que serão anunciadas no jornal, nos muros que nos protegem em nossas cavernas, na vida errante dos que se apaixonam, nos sonhos que motivam cada passo nosso e nas vontades destroçadas que definem os sem-esperança, penso nas paixões secretas que me tomam, e no que há escondido nas palavras que ela escreve. Penso no silêncio dos mudos que dizem da vida mesmo sem falar, penso em minhas aflições, naquilo que nunca vou ser. Penso no hiato dos mosteiros... Penso no que as ruas nos dirão amanhã quando acordarem de seu descanso, reiniciando o jogo das vidas fronte as suas possibilidades, penso na esperança que carrega o novo dia e no horror que envolve as expectativas... penso sobretudo na música de Coltrane, que nesse instante me envolve em uma paz nirvânica e indelével com o mundo, numa sintonia com o que há de bom e harmônico nessa loucura toda... Penso em Ginsberg:
“Follow your inner moonlight; don't hide the madness.”

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

2

Mais birita, comprimidos e substâncias parasitas. No quarto, o balé orgiatico dos corpos encena os rituais dionisíacos. Três caras e duas góticas branquelas meio rechonchudas, conas novinhas e vermelhas. Roupas pretas, crucifixos, all-stars, maquiagem e toda aquela rebeldia sustentada pelos pais. Penso em aderir à coreografia, mas ainda não estou chapado o suficiente pra ficar nu na frente de outros caras. Limito-me a beber e observar. Fodem feito loucas, com um certo frenesi doentio, como se a existência dependesse daquelas picas; sexo catártico, como se expulsasse alguma coisa da mente - talvez as merdas que leram de punheteiros como Byron e Kafka. Cavalgadas e estocadas nirvânicas. As formas de Platão provavam sua perfeição ao se encaixar umas nas outras. Suor e sêmen se entrelaçam na dança ascética do corpo, ele não é mais objeto da ótica divina – é vivido do ponto de vista da língua, dos olhos, dos pêlos(,) da buceta(,) do pau(,) da gruta(,) do nariz... A celebração da carne sendo consumada.

Algo acena pra mim no escuro do outro canto do quarto, vou até lá. Vejo Dioniso, uma corda na janela o enforca - o capital lhe impôs outra máscara. Dou-lhe um gole de birita, por um instante muda-se o seu aspecto decrépito. Fausto de épocas esquecidas. Os deuses desceram do Olimpo novamente, fizeram-se imagem e semelhança do homem. Tiro sua máscara. Compartilho a garrafa enquanto assistimos os momentos finais da transa.Dioniso conta-me seus segredos, o deus da antigüidade está gordo e cansado; ateu, hoje pensa em procurar um emprego, ou um analista, está esquecido em meio aos escombros da história. Chapa-se de roupinol e comprimidos baratos. Veste-se feito um hippie com sandálias havaianas. Não preciso de um deus tão fudido quanto eu. Saio do quarto e deixo-lhe com a birita e alguns cigarros...

sábado, 8 de agosto de 2009

1

- Cara, acho que vou à Igreja – falou o gordo ao aspirar a neve que enfeitava o prato. A comédia humana – Balzac ria em sua tumba. O jogo manjado da vida, a busca por uma ilusão conveniente. Phármakos, futebol, sexo, amor, deus, conhecimento, arte, beleza, bondade – signos de uma identidade imutável... a busca por sentido, a busca por sentido – o apanágio de nossas vísceras. Na brevidade do sopro a que chamamos vida, a única opção é escolher.

Ah, desculpem não apresentar o gordo. Falemos um pouco mais dele, esse personagem ímpar que perambula nas madrugadas da ZN. O gordo é um cara normal, a única diferença é que quando ele bebe, quer bater em todo mundo. Basta ficar bêbado e alguém ter o azar de cruzar o seu caminho que ele vai atrás e quebra de pancada. Há no gordo o ódio sincero que sentimos uns pelos outros, seu contrato social é firmado com quem tiver o álcool. Ele, assim como eu, não tem muita ‘tolerância’ com a cambada de cretinos (como diria Holden Caufield) que compõem os pseudo-personagens de pseudo-grupos de pseudo-tribos que vivem por aí. Mas não porque se acha autêntico ou coisa do tipo, odeia por odiar e bate por bater. Dentre as brigas loucas que envolvem o gordo, há umas bastante famosas, como a do punk playboy, o nazista negro e o black metal que apanhava da mulher. Lembro do Velho Safado e a sua máxima: “(...)o horror é uma gentileza”. Expulsar o que há de bestial no plasma de nosso sangue, bater, apanhar, não há melhor alegoria da vida. Viver é uma estadia no inferno, poeminhas perfumados, diários de magos é o caralho! “A realidade é o maior poema a ser construído”, escreveu o amigo Heautontimoroumenos em um de seus textos, e o gordo escreve seus versos com drogas, chutes, sangue, socos, ossos quebrados e o que vier.


"...Coisas da vida" Kurt Vonnegut